Conto: Maia e Eu

Maia e Eu

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— Você veio aqui só porque a mãe pediu, não foi?— ela disse se apoiando na lateral da porta e bloqueando a entrada.

Muita gente que me conhece ainda acha que sou filho único. Maia havia se deslocado da família tão logo pode. Não havia motivos claros para isso. Um dia ela arranjou um namorado, um trabalho e sumiu. Depois disso raramente nos víamos e tudo que eu sabia dela vinha da minha mãe, que ligava mensalmente para se certificar de que ela estava bem, trabalhando e que não tinha morrido de overdose.

Eu estava lá principalmente por causa da coisa que minha mãe havia me contado. Alice, uma garota que minha mãe insistia em chamar de “a amiga de Maia”, havia se matado. Por mais que minha mãe chamasse Alice de “a amiga da Maia”, ela sabia que elas eram muito mais que isso. Maia amava Alice muito mais do que poderia amar minha mãe.

— Fiquei sem apartamento de novo, ia ficar em casa enquanto procuro por outro, mas nossa mãe não me aceita lá, ela quer que eu passe uns dias com você.— falei.

Ela olhou para baixo e eu percebi que ela ia fechar a porta na minha cara.

— Não precisamos conversar nada, me deixa ficar 5 dias e eu digo para ela que está tudo bem com você.— falei.

— Fala também que não paguei a conta do telefone desse mês, nem adianta ela ligar.— ela disse saindo da frente da porta e me deixando entrar.

A casa era velha e mal cuidada. As janelas da cozinha eram escuras, os armários estavam sem portas parecendo prateleiras e o fogão estava cheio de gordura. No chão, envolta da lata de lixo cheia, haviam fileiras de garrafas vazias. No centro havia uma mesa com duas cadeiras, iluminada por uma lâmpada florescente que descia do teto por um fio até ficar a uns dois metros da mesa.

— Se a bagunça incomodar você pode arrumar.— ela disse fechando a porta atrás de mim e saindo por um corredor.

A segui até uma sala com um sofá-cama.

— Você pode ficar aqui. A tv só serve de enfeite.— ela disse e saiu para não sei onde.

Arrumei minhas coisas, armei o sofá e dormi.

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Acordei cedo no outro dia. A porta do quarto de Maia estava fechada e não quis perturbá-la. Abri a geladeira, mas não achei nada que pudesse preparar para o café. Procurei nos armários por algo e acabei achando sachês de chá. Tentei acender o fogão e vi que o fogo estava fraco demais. Usei um fio de cobre que tirei da tv para desentupir as saídas da boca do fogão e o fogo ficou intenso. Esquentei a água e preparei o chá enquanto procurava algo para comer. Tudo que achei foi um pote de biscoitos que coloquei sobre a mesa.

— Que cheiro é esse?— disse Maia saindo do quarto com o cabelo embaraçado.

— Só estou fazendo algo para tomar no café.— respondi.

Ela se aproximou lentamente me encarando e sentou do outro lado da mesa.

Peguei uma outra caneca e coloquei um pouco de chá para ela sentando-me na mesa também.

Ela abriu o pote de biscoitos e de lá tirou um maço de cigarros e apontou pra mim.

— Não fumo.— falei.

— Você não está na faculdade? Pensei que todos os garotos de faculdade fumassem.— ela disse tirando um dos cigarros do maço e colocando na boca.

— Não. Também não tem tantas orgias como se pensa.— disse dando um gole no meu chá.

Ela fingiu sorrir e acendeu o cigarro. Ficou calada durante todo o tempo que tomávamos chá, eventualmente olhando para o relógio preso na parede. Depois saiu e voltou arrumada jogando uma chave sobre mesa.

— Vou trabalhar. As sete eu volto.— e se virou para sair, mas num último momento voltou a olhar pra mim— Quer sair essa noite? Quando eu voltar, podemos ter uma noite de irmãos. Falar mal dos pais, conhecer um ao outro sem aquelas mentiras todas que a mãe conta.

— Tudo bem— eu disse— logo eu vou pra aula, mas volto antes de você.— finalizei e ela saiu sem se despedir.

Logo depois eu mesmo me arrumei e saí para comer algo na rua.

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Fomos à uma rua próxima a casa dela que era completamente reservada a bares e restaurantes de terceira categoria. Havia pelo menos 4 violonistas tocando, sem contar aparelhos de som e televisores ligadas no último volume. O lugar estava completamente cheio e mesmo sendo apenas duas pessoas parecia difícil achar lugar ali.

Maia ignorou todos esses bares e andou até uma porta aberta de um prédio velho. Lá dentro seguimos por um corredor longo e escuro que levou a uma escadaria. Subimos talvez três andares e entramos num outro corredor iluminado por uma luz amarela. Finalmente chegamos à uma porta envolta por luzes de néon vermelho e lá dentro encontramos um pequeno bar.

O lugar era mínimo. Havia duas mesas, quase cercadas por sofás de tom café, e uma fileira de cadeiras em frente ao balcão, aonde estavam conversando dois homens arrumados e uma mulher usando um vestido vermelho. Numa parede, três maquinas de caça-niqueis, todas ocupadas por homens velhos que fumavam cigarros enquanto jogavam. Atrás do balcão havia uma infinidade de garrafas numa variedade de cores. O barman bem vestido e asiático ficava limpando com um pano amarelo o mesmo copo de forma repetitiva enquanto encarava uma pequena televisão portátil que estava sobre o balão.

Eu e Maia nos sentamos numa das mesas e peguei o pequeno cardápio que estava sobre a mesa e o abri.

— As coisas não são tão caras aqui.— comentei enquanto lia o cardápio que tinha uma lista grande de pratos japoneses e drinks.

Maia retirou o maço de cigarros da bolsa e o colocou sobre a mesa. Pareceu procurar alguma coisa.

— Esse lugar é diferente.— ela disse.

Uma jovem de uns 14 anos, também asiática, parou em frente à mesa sem dizer nenhuma palavra. Usava um avental branco com o símbolo de um gato dourado.

Maia tirou o cardápio da minha mão e apontou alguma coisa nele para que a jovem pudesse ver. Ela concordou com um acendo de cabeça e deu um passo para trás.

— Traga-me um cinzeiro também, por favor.— Maia disse colocando o cardápio novamente sobre a mesa.

A jovem concordou novamente e se retirou.

As pessoas no balcão riam alto e vez ou outra um som eletrônico vinha das maquinas de caça níquel. Era impossível escutar qualquer barulho vindo de fora dali.

— Posso perguntar como descobriu esse lugar?— falei.

— Um dia eu vi aquela porta aberta e entrei.— ela respondeu sem se importar.

Imaginei se todas aquelas pessoas haviam descoberto o lugar da mesma forma. Não era muito lógico. Era bem complicado entrar no mesmo prédio, subir o mesmo exato número de andares e andar até aquela mesma porta. Era mais simples que tivessem chegado lá no boca à boca.

— Você tem um isqueiro, amor?— perguntou a moça de vermelho que antes estava no balcão.

— Ah…não, eu não fumo. Maia, você?— perguntei a ela.

Maia retirou o isqueiro do bolso da camisa e apontou aceso para a mulher que se aproximou da chama e acendeu o cigarro ainda olhando para mim. Com o cigarro aceso soltou um pouco de fumaça ali perto da mesa, agradeceu primeiro a mim, depois a Maia, e se afastou da mesa.

Maia me encarou por meio minuto e começou a gargalhar de forma contida.

— O que foi?— perguntei.

— Meu irmão seduzindo a quarentona.

— Que isso, ela só queria o fogo.

— Seu fogo. Ela estava te comendo com os olhos.— ela disse abrindo o maço de cigarro e retirando um.

— Ah…Besteira, ela não pode querer algo comigo.

A jovem de avental retornou e colocou um cinzeiro sobre a mesa dizendo numa voz suave que logo estaria tudo pronto.

Maia concordou com um acendo e acendeu o cigarro.

— Você é o estrangeiro aqui. O exótico, diferente daqueles que estão lá sentados com ela.

— Ah…

— Se eu fosse você, eu ia no banheiro. Aposto que ela vai te seguir.— como não respondi nada ela voltou a falar— Não seja tímido, eu não vou me importar se você for lá comer ela e voltar. Ela é bonita. Se estivesse interessada em mim eu não deixava passar.

— Eu realmente não estou interessado nisso.— falei meio apático— No momento não é bom.

— Tem outra garota?— Maia perguntou batendo o cigarro no cinzeiro de forma séria.

Começou a tocar um jazz suave. Só então notei a maquina de jukebox ao lado da porta do banheiro.

— Tem sim.— respondi.

Maia sorriu largamente e deu uma tragada no cigarro. Depois jogou a fumaça pra cima.

— Muito bom. Isso é muito bom. Meu irmão é um namoradinho fiel.— ela disse olhando as próprias unhas.

Eu não era namoradinho. Também era complicado me chamar de fiel, mas essa garota era um caso especial. Olhei para Maia e percebi que tínhamos isso em comum. Por tudo que ouvi de Alice, ficava claro que Maia também nunca a trocaria por outra pessoa. Imaginei que talvez esse assunto não fosse tão confortável para ela.

— Você consegue descrever ela?— Maia perguntou.

Fiquei imaginando.

— Ela é bonita, de um loiro mais escuro que o seu, mais ou menos a minha altura. Pele bem clara. Olhos castanhos quase verdes.— falei.

— Se essa garota é tão especial deveria dizer mais que isso. Acho que quando a pessoa é muito importante a gente descreve ela por ações.— ela disse antes de levar o cigarro à boca.

— Ela sempre olha para os dois lados antes de atravessar a rua. Ela é assustada, às vezes parece que vai sair correndo. Ela me deixa guiar ela quando andamos na rua, mas às vezes ela solta minha mão e corre na frente até algum lugar, depois se vira para olhar para mim. Se desculpa por pequenas coisas, pergunta muitas outras, o tempo todo. Quando está frio ela cruza os braços sobre o peito segurando ambos os ombros. Ela tem vergonha de me beijar em público, mesmo quando estamos sozinhos ela é tímida quanto a isso.— falei até que fui interrompido pela jovem de avental que voltou equilibrando uma bandeja cheia.

— Bastante melhor assim.— Maia disse enquanto a jovem com habilidade colocava tudo sobre a mesa.— Mas duvido que ela foda melhor que aquela tia.— ela disse apontando o cigarro para a mulher de vermelho.

Sobre a mesa estavam as tigelas cheias de arroz, pratos com camarões arrumados num circulo, tiras de peixe, potes com condimentos que não reconheci, e um prato com frango grelhado, além disso, duas caixinhas de madeira e uma garrafa que deduzi ser saquê.

Maia apagou o cigarro no cinzeiro e pegando a garrafa encheu as duas caixinhas de madeira com o saquê. Brindamos e demos o primeiro gole. Dei um gole bem curto porque era a primeira vez que tomava saquê. Ele queimou um pouco minha garganta. O gosto era bom apesar disso.

Ela pegou um saquinho de papel longo e o rasgou tirando de lá um par de hashis. Abri um que estava ao lado da minha tigela também.

— Você sabe comer com esses pauzinhos?— ela perguntou vendo minha dificuldade em manusear os hashis.

— Não.— respondi.

— O segredo é usar como uma pinça.— ela disse abrindo e fechando os palitos.

Fiquei tentando até mais ou menos conseguir. Maia já estava comendo.

— Hum, é muito gostoso mesmo!— falei depois de provar o arroz e um dos camarões.

— Como está a mãe?— ela perguntou depois de engolir uma poção de arroz.

— Eu acho que está bem. Eu não estou muito próximo dela agora, estou no momento de me virar sozinho.— disse tentando pegar mais um camarão— Mais ou menos, se for pensar que estou na sua casa. Mas é por pouco tempo.— terminei, finalmente pegando o camarão. Ela deu de ombros e continuou a comer— Eu sei que ela está preocupada com você.— comentei.

— Ela exagera. Deve ser coisa de mãe.— ela disse bebendo mais saquê— Como anda sua vida? Tudo que a mãe fala é que você logo vai se formar.

— Verdade. Tirando isso é tudo muito perdido e incerto.

— O oposto de mim.— ela disse e eu estranhei— Minha vida anda muito certa, trabalho, beber um pouco, casa.

— São situações opostas e nenhum de nós está contente com elas.

— A sua é melhor, mas eu posso mudar a minha. Está na hora de mudar isso.

— No que pensa?— perguntei

— Acho que vou juntar um dinheiro e me mudar. Preciso de um outro lugar.— ela disse enquanto eu bebia.

— Você já não fez isso antes?

Ela enche o copo dela de saquê e depois completa o meu.

— Sim. Eu me mudo, absorvo tudo do novo lugar, e então repito a mesma coisa.

Por um minuto invejei o nível de desapego dela, mas logo lembrei de Alice e ficou ainda mais claro o quanto ela era importante.

— Dessa vez eu quero ir para um lugar bem absurdo.— ela falou colocando algo na boca— Talvez sair do Brasil, meu espanhol nem é tão ruim.

— Melhor que o meu eu garanto que é.

Uma música mais agitada começou a tocar. As pessoas no balcão riram alto enquanto um dos homens tentava dançar.

Maia sorriu.

— Você não tem essa vontade? Ir para outro lugar.

— Sim, mas acho que por motivos diferentes do seu.

Ela me encarou e ficou esperando a explicação.

— Você busca o novo e diferente, já eu, acho que estou procurando algo mais específico, ainda que não saiba definir bem.— falei enquanto ela bebia mais.

— Quando comecei— ela disse colocando a caixinha de madeira sobre a mesa— Eu também estava buscando algo específico.— ela parou e ficou me olhando por muito tempo até que voltou a falar— Talvez você veja o que acontece. Não somos tão diferentes assim.

— Eu quero saber o que acontece.

Ela encarava as pessoas no balcão, com um sorriso no rosto.

— Beba mais. Ai eu lhe conto o que acontece.— ela disse apontando para a caixa de madeira ainda cheia de saquê.

Bebi tudo.

— Você nunca acha esse algo específico.— ela disse retirando mais um cigarro do maço e o acendendo— Olha, você vai pensar que achou esse lugar várias vezes, mas então ele vai sumir. É uma coisa que dura um momento. Você só tem que escolher se vai passar a vida buscando esses momentos, ou se vai se contentar com outras coisas.

— Faz bastante sentido.— eu disse apesar de não concordar.

Ela tragou o cigarro e segurou a fumaça por muito tempo antes de a soltar para cima. Depois pegou a garrafa e encheu minha caixinha. Um som de moedas caindo se prolongou por quase um minuto, fora isso o bar pareceu ficar mudo. Maia ficou me olhando com a boca torta, algo que deveria parecer um sorriso.

— Alice era meu momento— ela disse cobrindo a boca com a mão que segurava o cigarro— ela foi muitos momentos.— seu rosto pareceu se tornar petrificado enquanto a fumaça subia criando uma linha que dividia os dois lados.

Fiquei olhando para ela meio sem reação.

— Queria ter sua sorte.— eu disse sem pensar direito, só depois notando o que eu tinha dito.

Ela me olhou meio de lado e sorriu.

— Que coisa para se dizer.— falou rindo sinceramente.

Antes que eu pudesse me corrigir ela tomou a palavra novamente.

— Eu tive mesmo muita sorte. Obrigada!— ela disse e eu apenas sorri de volta— Espero que tenha a mesma sorte que eu. Só a sorte.

— Quero mesmo.

Ela pegou a caixinha com o saquê e brindamos ambos à sorte. Depois ela ficou me analisando por um longo momento enquanto fumava seu cigarro.

— Quer saber o que eu lembro de você, de quando éramos crianças?— ela falou.

— Deve ser algo bem vergonhoso.— falei comendo o que ainda restava na mesa.

As pessoas no balcão gargalharam e mais uma vez se ouviu o som de moedas caindo.

— Eu lembro desse lugar que a mãe levou a gente para passar as férias, e que eu levei você para explorar comigo. Chegamos num lugar gramado com um lago e você não quis vir comigo porque a mãe tinha dito que era sujo de coco e você podia pegar uma doença.— eu tentava imaginar a cena enquanto ela falava— Então eu peguei você e joguei no lago a força.— ela terminou de falar e começou a rir.

Eu lembrei da cena, eu chorando nos braços dela, e então, mergulhado no lago de água turva.

— Sou uma filha da puta, não sou?— ela disse ainda rindo.

— A gente ficou brincando no lago o dia todo. Eu precisava daquele empurrão.

— Só que depois voltamos pra casa molhados e a noite. Você ficou de cama uma semana e eu apanhei um bocado.— ela disse apagando o cigarro no cinzeiro.

— Desculpe.— eu disse. Ela voltou a rir e eu me juntei a ela.

Ela pegou outro cigarro do maço olhando para as pessoas no balcão.

— Então, vai sentir minha falta quando eu for?— perguntou acendendo o cigarro.

— Você sentiu a minha?— perguntei.

— Desculpe por isso.— Maia falou voltando a olhar para mim.

— Tudo bem, não sou mais aquele garoto.

— É a forma como as coisas têm que ser.— ela disse enchendo as caixinhas com mais saquê.

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