O Universo DC Segundo Zack Snyder

Justice League (1)Aviso: O texto abaixo contém spoilers de Batman VS Superman, leia por sua conta em risco. (E senta que lá vem textão!)

Apenas uma resenha sobre Batman VS Superman não foi o suficiente, eu precisava escrever mais um texto sobre o filme. Não só por que eu realmente gostei do que vi, e acho injusta boa parte das críticas que ele vem recebendo, mas por que acho louvável a coragem que a Warner e o Zack Snyder estão tendo ao construir o universo cinematográfico da DC.

Eles poderiam muito bem ter seguido a fórmula de sucesso da Marvel, e apostado numa adaptação mais convencional, entregando algo mais palatável ao público em geral. Mas ao invés disso preferiram ousar. Arriscaram-se ao abordar os dois heróis mais icônicos de todos os tempos por um outro ângulo.

Empire_Bat_v_SupesNão vou me estender novamente aqui na questão do roteiro, mesmo não estando isento de falhas, ser coerente com a proposta do filme, e como a trama avança sabiamente evitando didatismos. Já falei bastante sobre isso lá na crítica. Hoje, particularmente, eu queria falar sobre uma das reclamações mais frequentes sobre o filme que eu tenho visto por aí: Zack Snyder.

Zack Snyder não entende nada de história em quadrinhos”. “Ele descaracterizou o Super-Homem”. “De onde ele tirou que o Batman mata?”. “Zack Snyder odeia super-heróis”.

Eu não poderia discordar mais de todas essas afirmações. Eu não só acho que Snyder entendeu muito bem o que leu, como foi competente ao reinterpretar tudo isso ao apresentar esses heróis para um novo milênio. E não digo isso como fã do diretor – particularmente, seus maneirismos na hora de filmar, cheio de câmeras lentas e filtros me cansam um pouco –, mas como um fã incondicional de HQs. É como o garoto que cresceu lendo as histórias do Batman e do Super-Homem que eu defendo a visão do filme.

Superman_tumblr_nyroce42_500Primeiramente: você tem que ter a mente aberta se quiser realmente curtir a história. Não adianta, esses não são os super-heróis dos quadrinhos. Esse não é o Batman que todos conhecem. Ele não possui mais fé na humanidade. Como muitos de nós, após tantos anos de luta, ele se cansou. E sim, desistiu (Deal With It!). Já o Superman ainda não é o herói que todos conhecem. Vejam bem, AINDA não é. Mesmo que toda a abordagem aqui seja outra, nessa releitura que o diretor faz do personagem, sua essência ainda está lá. Tudo o que ele e o Batman representam, ainda está lá. A diferença é que talvez não do jeito que esperávamos.

Num primeiro olhar é fácil de acreditar que Snyder e sua trupe descaracterizaram esses personagens, que os corromperam. No entanto, é só se aprofundar um pouco mais na trama para perceber como isso é uma inverdade.

14534126307356Mas vamos por parte, antes é preciso entender o porquê de todas essas mudanças e sua real necessidade. Por que investir numa abordagem que gera tanta controversa? Por que se distanciar tanto do que foi estabelecido nos quadrinhos? É para simplesmente se destacar do que a Marvel tem feito com seus heróis nos cinemas?

Acontece que a DC tem tido uma enorme dificuldade em alavancar sucessos com suas adaptações cinematográficas nos últimos anos. Lanterna Verde e Jonah Hex são dois filmes que tanto os fãs, quanto a Warner adorariam esquecer que existem. A única exceção foi o Batman do Christopher Nolan. A trilogia do Cavaleiro das Trevas foi tanto um sucesso de público quanto de crítica.

Mas o Nolanverse tinha um problema. Ele era fechado, realista demais. Não havia como expandir o universo da DC como eles queriam com base nesses filmes. A solução então foi pegar o que funcionou nos filmes da era Bale, e incrementar em outras produções que pudessem abrir caminho para um possível universo compartilhado de heróis.

Man-of-SteekCom isso em mente, o estúdio apostou na cartilha do Nolan e investiu pesado no tom sério e realista na hora de revitalizar o maior herói de todos os tempos. “Man of Steel” era o filme que o Superman precisava. Por mais que muitos tenham odiado o filme, ele se fazia necessário. E a razão é até bem simples, por mais que seja dura de admitir: O Super-Homem não funcionava mais. Tanto nos cinemas quanto nos quadrinhos. E não sou eu que estou dizendo isso, basta analisar o histórico do personagem nos últimos anos para perceber isso.

O subestimado Superman – O Retorno do Bryan Singer, apesar da bela homenagem que fez ao legado de Christopher Reeve e Richard Donner, não agradou como esperado. Muitos reclamaram da falta de ação, mas o fato é que mesmo sendo fiel a essência clássica do herói e profundamente sentimental, o longa de 2006 escancara o quanto a figura do Homem de Aço estava dessintonizada do mundo atual. Entre os próprios leitores de quadrinhos não é difícil encontrar aqueles que acham o personagem chato. “Ele é poderoso demais”. “Ele é bonzinho demais”. Para toda uma geração acostumada com anti-heróis mais brutos e sombrios, o Super-Homem é um personagem careta. Seus ideais soam antiquados. Ele não reflete mais o mundo atual. Não à toa a versão do Injustice é tão popular.

Pessoalmente, acredito que isso seja mais um problema da nossa sociedade atual do que do Azulão. Não somos mais tão inocentes e idealistas quanto éramos oitenta, setenta anos atrás. Ainda que eu ache que isso faça do Superman enquanto o símbolo que ele é mais necessário do que nunca, eu me pergunto: Como torná-lo relevante novamente? Como fazer as pessoas perceberem a verdadeira grandeza do herói? Como reforçar seus ideais numa época tão cínica e maliciosa? Ora, fazendo aquilo que as melhores histórias do Homem de Aço pareceram sempre saber: focar no lado humano do personagem.

E é nisso que acho que todo esse novo universo construído por Snyder e companhia acerta em cheio. Por mais que o nerd em mim tenha se deleitado ao ver cenas clássicas dos quadrinhos reproduzidas na tela do cinema, há algo mais profundo em Batman VS Superman que consegue fascinar tanto quanto as cenas de ação. É justamente o enfoque no caráter humano dos personagens que torna esse filme tão bom a meu ver. Por que antes de ser um alienígena à prova de balas, capaz de voar, soltar lasers pelos olhos, e destruir uma cidade inteira numa briga, o Superman é apenas um cara do interior do Kansas, que tenta da maneira que pode fazer do mundo um lugar melhor. Um cara que como eu tem dúvidas, questiona se está fazendo a coisa certa, que está disposto a lidar com as consequências dos seus atos. Por que antes de ser o maior detetive do mundo, um mestre em artes marciais preparado para tudo, o Batman é um homem traumatizado que nunca superou o assassinato dos pais. Ele é um cara que levou tanta porrada da vida, que sacrificou tanta coisa em prol dos outros, que se embruteceu pelo caminho. Esse Batman é um cara que sim, se deixou cegar pelo ódio, abandonou seu código moral de não matar, mas no fim das contas percebeu que estava errado. Foi humilde para admitir seu erro, e teve nobreza suficiente para tentar repara-lo.

Dont_Leave_Me_02E é isso o que eu realmente admiro nesse filme. Ele torna essas figuras facilmente relacionáveis. Retratar esses aspectos desses heróis não os descaracteriza. Pelo contrário, os engrandece. Eles não são mais ideais de perfeições – Não que tivesse algo errado com isso. São falhos. Assim como eu e você. E talvez por isso sejam exemplos até melhores. Eles não são mais figuras idealizadas que aspiramos ser um dia. Eles mostram o que realmente podemos ser hoje, apesar de todos os pesares.

É claro que essa noção não vai agradar todo mundo. Todos tem uma ideia própria do que esses personagens representam ou deveriam representar, e duvido muito que vê-los cheios de defeitos e medos seja uma delas. Mas se você estiver disposto a enxergar esses heróis com outros olhos, e tentar ler nas entrelinhas, vai ver como esse filme é muito mais do que parece.

digitalizar0001Eu falo isso como um cara que realmente ama esses personagens. Eu também tenho minha concepção ideal do Batman e do Super-Homem. E o que elas têm em comum para mim é essa capacidade de me fazer refletir sobre minhas próprias ações. Não só me inspirar a ser uma pessoa melhor, mas procura fazer o melhor que eu possa apesar das diversidades, apesar dos meus medos. E poder me identificar com eles foi fundamental para isso. Eu me lembro até hoje do momento em o que o Super-Homem se tornou um dos meus heróis favoritos.

Eu já conhecia e adorava os filmes do Reeve, mas foi o John Byrne que me apresentou a versão definitiva do herói. O Homem de Aço não é só minha fase favorita dos quadrinhos, ela sintetiza tudo o que eu mais amo no Superman. A cena que ficou durante anos na minha cabeça, e me fez o enxergar com outros olhos é de uma simplicidade impar. Clark ainda não era o herói que viríamos a conhecer. Ele salvou um avião em Metrópolis, e as pessoas correram para cima dele em histeria, todos querendo alguma coisa. Por mais que ele quisesse ajudar, ele não sabia como lidar com aquilo. Não sabia como agir com a reação das pessoas. Ele estava assustado, então fugiu. Toda essa cena é contada por ele em flashback. Ele está na casa dos pais dele lá em Smallville. É para lá que ele vai em busca de orientação. Ele se sente perdido, sem saber o que fazer e são seus pais que lhe dão a ideia de usar tanto o uniforme, quanto seu disfarce de Clark Kent. Essa cena me impactou muito por um simples motivo: Eu me vi no Super-Homem. Naquele momento, o cara sentado na poltrona dum quarto escuro, não era muito diferente do garoto de sete anos que ainda recorria aos pais toda vez que tinha medo. Que buscava neles conselhos e conforto. Foi ali que me bateu que o Super-Homem, aquele herói que eu imitava pra cima e para baixo com uma capa pendurada no pescoço tinha muito mais em comum comigo do que eu imaginava. Vê-lo vulnerável, mais humano, foi imprescindível para que eu me identificasse com ele.

digitalizar0026Esse sentimento se repetiu ao longo dos anos com outras HQs do herói. Eu entendia a melancolia e os efeitos da passagem do tempo de as Quatro Estações. Eu compartilhava do desejo de sair pelo mundo numa jornada de autoconhecimento como em o Legado das Estrelas. Eu sentia a angustia e sentimento de inadequação da metalinguística Identidade Secreta. E eu vi todos esses sentimentos serem retratados em Man of Steel. E agora de novo em Batman VS Superman. Um Clark que ainda não está seguro do seu papel, mas nem por isso deixa de fazer o que é certo ou o que acredita. Pode não ser o símbolo de bondade que queríamos, mas é o melhor exemplo que poderíamos ter numa época dominada por incertezas.

batman-v-superman-trailer-screengrab-4Zack Snyder não tornou sombrio os heróis que crescemos lendo. Ele apenas os situou no mundo real, onde ações geram consequências. Se por vezes ele parece seguir o caminho que Mark Waid e Alex Ross criticavam lá em o Reino do Amanhã, com heróis mais brutos, distantes daqueles ideais de heroísmo de outrora, o final parece por tudo nos trilhos certos. Assim como na Graphic Novel, alguns heróis se desvirtuaram do caminho, mas no fim encontraram a força necessária para fazer o que é certo. A esperança prevaleceu. “Se você procura seu monumento, olhe ao seu redor.”

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Eu vi essa cena ser reproduzida no cinema

Eu saí do cinema feliz. Fui esperando ver apenas um bom entretenimento, voltei me sentindo aquele garoto que passava as tardes lendo gibis deitado no tapete da sala. O que eu vi foi uma baita de uma homenagem a tudo aquilo que eu cresci curtindo. Não só visualmente, mas no que concerne ao espírito desses personagens. Snyder pode não ser o melhor diretor do mundo, mas eu não tenho dúvidas de que ele assimilou muito bem tudo o que leu. Ele soube reinterpretar de forma acertada esses heróis para para um novo século, mantendo mais vivo e relevante do que nunca o legado deles.

Eu estou mais do que certo que a DC  finalmente está em boas mãos, e mal posso esperar para ver o que o futuro reserva para esses heróis.

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9 Respostas para “O Universo DC Segundo Zack Snyder

  1. Pingback: Crítica | Gotham – 2ª Temporada | the Procrastinadores·

  2. Infelizmente esse universo que o Snyder criou acabou, pois a proposta agora é ser “divertido”, tanto é que ele não será mais o diretor de Man of Steel 2 (esta ente J.J Abrams e Edgar Right) assim como será Patty Jenkins quem ira assumir LJ2, estou muito triste com isso pois também acho MOS e BvS extraordinárias adaptações, assim como foi com Wacthmen.
    Ao menos terei estes dois filmes em casa para rever quando quiser e ao mesmo tempo ficar triste por saber que não terão continuações a altura.

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    • Olá Dudu, seja bem-vindo ao blog!

      Cara, só soube disso ontem. Não sei bem o que pensar. Gosto do J.J. Abrams. Amei o que ele fez com Star Trek e Star Wars, mas queria que o Snyder continuasse a frente do Man of Steel 2. Não acho que eles vão alterar muito o tom dos filmes não, mas com a crítica toda massacrando, tudo é possível. 😀

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      • Eu já não estou tão otimista, pois alem de cortarem 30 minutos de BvS o que fizeram com o Ayer mostra claramente que a Warner esta mudando o que haviam planejado junto com o Snyder e o Nolan, e acredito até mesmo que o próprio Snyder deve estar cansado dessas interferências e mudanças nos seus filmes, posso estar enganado, mas toda aquela premissa de deixar cada diretor do universo DC ter liberdade criativa foi pela ralo, tendo em vista o que fizeram em Esquadrão e pelo trailer da LJ, sendo assim me parece que os filmes seguirão a mesma formula Marvel onde o seu universo já mostra o quão generalizado ele esta se tornando justamente por seguir as mesmas direções de arte, cinematografia, mas o mais grave é que o tom mais comédia com todos os personagens esta deixando os mesmos também generalizados, de qualquer forma sempre estarei no cinema para ver estes filmes, mesmo sabendo disso.

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        • A Warner está perdida. Ela não esta sabendo o que fazer com a críticas que os filmes receberam e tem mutilado sem dó nem piedade o trabalho de seus diretores. Poxa, a versão estendida de BVS é show. Ela é a que deveria ter ido para o cinema.
          Minha única esperança é que eles colocaram o Geoff Johns como supervisor do filmes da DC, e o cara entende de quadrinhos. Não acho que ele vá alterar drasticamente o tom das coisas não, mas sim tentar um meio termo, Acho que pelo menos isso deve evitar tanta interferência do estúdio na hora do lançamento. O jeito é esperar para ver, e torcer para ser bom. Assim como você, também estarei sempre nos cinemas para conferir o resultado. rs

          Abraços!

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  3. Thiago, acabei de chegar no teu blog e encontro esse texto emocionante! Sério, emocionante. Eu não sou especialista em HQ, mas gosto de super heróis, e fui ver esse filme. Gostei mt, apesar das críticas. Acontece que as pessoas adoram criticar, e muitas vezes fazem isso por não terem nada a dizer e não saberem quando é hora de ficar quieto. Elas nem param pra pensar na chatice que seria trazer os heróis como ideal de perfeição numa época em que isso é tido como ultrapassado. Fora que é inevitável que cada um tenha sua visão particular sobre um personagem (vide as inúmeras fanfics espalhadas por aí), e esperar que uma adaptação cinematográfica seja 100% fiel ao que vc leu não é realístico. Afinal, é uma adaptação, não reprodução.
    Ótimo post!

    Curtido por 1 pessoa

    • Seja bem-vinda, Deborah! Obrigado pela visita e pelo comentário! 😀

      Você está certíssima. É uma adaptação, não vai reproduzir tudo igualzinho. O pessoal tem que ter a mente mais aberta. Mantendo a essência dos personagens e sendo bom enquanto filme já é suficiente para mim.

      Beijão!

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