Crítica | Supergirl – 1ª Temporada

Supergirl_HopeAviso: O texto abaixo contém spoilers, leia por sua conta em risco.

Demorou, mas finalmente consegui terminar a primeira temporada de Supergirl. E olha, tenho que ser honesto, há quase um ano atrás quando foi divulgado o seu primeiro e duvidoso trailer, eu realmente não esperava que fosse acabar curtindo tanto essa série como eu curti.

Sabe aquele programa que você gosta de assistir mesmo tendo total consciência dos seus defeitos? Aquele tipo de show que você pode desligar o cérebro por algumas horas após um dia cansativo e apenas sentar à frente da televisão e se divertir? Pois é… É assim que me sinto com essa série. Supergirl é leve, descontraída e demonstrou ao longo desse primeiro ano um enorme potencial.

Supergirl_Flight_tumblr_nx5ifmÉ bom deixar claro, de nada adianta querer comparar essa série com outros shows de super-heróis da atualidade. Não espere algo no nível ou complexidade da Jessica Jones. Supergirl é claramente voltada para um público bem mais infantil. Não é à toa que o programa tem todo um clima mais inocente, às vezes até “bobinho” demais para uma galera da minha faixa etária. Eu até consigo enxergar nisso uma justificativa para a narrativa didática da série, com tudo sempre sendo explicado nos mínimos detalhes. Normalmente, isso me frustraria (e muito), mas acho bacana que no meio de tantas produções baseadas em quadrinhos voltadas para um público mais adulto, tenha uma série que se preocupe em dialogar com os mais novos. É legal ver a importância que eles dão a questões como família, amizade e trabalho em equipe, tipo aquelas moral da história ao final de cada episódio. Tudo de forma bem leve.

Como eu disse lá no review do piloto, essa versão da Supermoça é um pouco diferente dos quadrinhos. Nada da heroína sexualizada das HQs. Sua personalidade se assemelha bem mais a do Flash do Grant Gustin. Kara (Melissa Benoist) é adoravelmente ingênua, doce, e assim como o Barry também está aprendendo o que significa ser um super-herói de verdade e todas as implicações que isso trás. Benoist simplesmente carrega o programa nas costas. É dificil precisar se essa série teria funcionado tão bem sem o seu carisma. Ela é engraçada, sabe equilibrar bem os momentos mais dramáticos com os “fofos” da personagem, além de se sair muito bem nas cenas de ação. E olha, como é legal ver uma mina salvando o dia para variar um pouco. Sim, a Supergirl é capaz de chutar bundas, e prova que é tão heroína quanto seu primo famoso.

"Pilot" -- After 12 years of keeping her powers a secret on Earth, Kara Zor-El, Superman's cousin, decides to finally embrace her superhuman abilities and be the hero she was always meant to be, on the series premiere of SUPERGIRL, Monday, Oct. 26 (8:30-9:30 PM, ET/PT), on the CBS Television Network. The series moves to its regular time period (8:00-9:00 PM) on Monday, Nov. 2. Pictured: Calista Flockhart as Cat Grant Photo: Richard Cartwright/CBS ©2015 CBS Broadcasting, Inc. All Rights ReservedEssa é uma das coisas mais louváveis da série, diga-se de passagem. Assim como o Homem-Aranha, e mais recentemente Ben 10 são referências de heróis para toda uma geração de garotos por aí, Supergirl é uma heroína a qual várias meninas vão poder se espelhar. A CBS foi feliz em criar uma personagem com dilemas que as garotas – e os garotos também, porque não? – possam facilmente se identificar e relacionar. Em uma época em que a igualdade de gêneros ainda é um tema de discussão recorrente, é bom ver séries como essa ganhando espaço, não só por ser protagonizada por uma mulher, mas por sua importante mensagem sobre representatividade. Sim, por que no final das contas, Kara não é a única “role model” da série. Cat Grant (Calista Flockhart), Alex Danvers (Chyler Leigh) e Lucy Lane (Jenna Dewan-Tatum) também são bons exemplos e vozes femininas fortes no seriado. Cat é a dona de um conglomerado de mídia digital, que teve que abrir mão de muita coisa para chegar aonde chegou, e mostra que você não precisa de superpoderes para ser uma vencedora. Alex, não é só uma brilhante cientista e importante agente do DOE (Department of Extra-Normal Operations), como provou mais de uma vez que é tão badass quanto sua irmã adotiva. E Lucy Lane (a irmã da Lois Lane), que além de não ter medo de se posicionar pelo que acredita, assumiu com competência o comando do DOE na reta final do programa. Dá-lhe Girl Power!

De todas essas, a personagem de Calista Flockhart foi a que mais me surpreendeu. De inicio parecia que ela seria apenas uma versão meia boca da vilã da Meryl Streep em O Diabo Veste Prada, mas Cat se tornou ao longo da temporada uma verdadeira mentora para Kara e um excelente alívio cômico para a série. Flockhart dá um tom meio canastrão certeiro a personagem, sempre cheia de piadinhas e referencias a cultura pop.

Supergirl-Episode-2-Wynn-James-OlsenOs outros coadjuvantes também não fazem feio. Winn (Jeremy Jordan) consegue ser mais que o amigo na frindzone, e se torna um indispensável sidekick, ali nos moldes da Chloe, de Smallville, ajudando Kara a manter seu segredo e patrulhar as ruas de National City. Ele ser filho do Homem dos Brinquedos (vilão clássico do Superman) adiciona uma dinâmica interessante à relação entre os dois. A versão da série do Jimmy Olsen (Mehcad Brooks) também é bacana. Assim como Kara, James – como ele prefere ser chamado agora – também procura sair da sombra do Super-Homem e conquistar seu espaço por méritos próprios. O não ata nem desata do romance entre os dois, contudo, é um dos pontos mais fracos da série para mim. Sabe aqueles momentos em que você tem vontade de pegar o controle remoto e avançar para a cena seguinte? Pois é. Mas eu entendo, não seria uma série Teen se não tivesse um triangulo amoroso (ou nesse caso, um pentágono amoroso).

Screen-Shot-2016-03-15-at-10.20.02-AMMas as duas melhores adições da série são Hank Henshaw (David Harewood) e Maxwell Lord (Peter Fancinelli). O primeiro foi uma grandessíssima e adorável surpresa. Tudo parecia indicar que Henshaw seria o vilão Superciborgue, como nos quadrinhos, mas ele acabou revelando ser na verdade J’onn J’onzz, o Caçador de Marte. A introdução do marciano na série foi muito bem-vinda, uma vez que ele acaba suprindo a ausência deixada pelo Super-Homem, como mentor da Kara. O episódio que explora sua origem, “Manhunter”, é um dos melhores da temporada em minha opinião. A relação paternal que ele desenvolve com Kara e Alex é ótima e suas cenas de ação são muito bem executadas, apesar da visível limitação de orçamento da série. Nesse sentido, foi uma boa sacada fazer dele um fugitivo no nosso planeta, justificando o porquê dele estar sempre “disfarçado”. E dado o contexto em que o personagem é apresentado, é bem provável que o verdadeiro Henshaw ainda dê as caras na série como o clássico vilão metálico.

Maxwell_LordMaxwell Lord faz às vezes de Lex Luthor nesse primeiro ano. Ele é a meu ver o grande vilão da série, se saindo indiscutivelmente melhor do que os Kryptonianos, Non (Chris Vance) e Astra (Laura Benanti) com seu plano furado de dominação da terra. Fancinelli faz um Maxwell Lord carismático e detestável ao mesmo tempo. Eu achei um acerto o representarem mais como uma figura inescrupulosa, do que necessariamente mau. Para ser honesto, nunca engoli o fato de terem transformado o personagem num maníaco homicida nos quadrinhos. Sempre preferi sua versão dos anos 80, quando ele era apenas um empresário cara de pau a frente da Liga da Justiça Internacional. O fato de suas ações na série, ainda que injustificáveis, serem feitas com base no medo do que os Kryptonianos poderiam fazer contra a raça humana rende um dos momentos mais interessante da reta final da série, com Kara fazendo jus ao legado da Casa de El, e literalmente salvando o mundo com o poder da esperança. Ok, é piegas. Mas é bem feito. Me remeteu instantaneamente a inocência dos quadrinhos que eu lia há muitos anos atrás, numa época em que histórias de super-heróis eram feitas para serem simples e divertidas.

Supergirl_vlcsnap-01321-2Falando assim pode até parecer que Supergirl é perfeita. Infelizmente não é. É como eu disse, é melhor não pensar muito, pois do contrário suas falhas se tornam bem evidentes. Ainda que seja voltada para um público mais novo, algumas escolhas são bem questionáveis. Por exemplo, como se não bastasse a quantidade absurda de fillers, os roteiros sofrem com a inconsistência. É vilã sendo derrotada com mangueira de bombeiro, é vilão que vai de querer salvar o planeta na marra para aniquilar a toda raça humana num piscar de olhos.

E ainda tem o fato de que ninguém nunca corre perigo de verdade. Ou vocês acharam mesmo que Winn e James iriam se espatifar no chão em “Myriad”?  Ou que aquele plano do Maxwell Lord de matar 8% da população para salvar o resto do planeta seria mesmo posto em pratica? Essa falta de gravidade, no entanto, não incomoda tanto quanto os vilões da semana, todos sem exceções genéricos e caricatos (até mesmo para um show infantil). E pior, com figurinos que disputam entre si para ver qual é o mais digno do troféu “vergonha alheia”. Sério, doeu os olhos ver a Laura Vandervoort vestindo aquela fantasia azul bizarra da Índigo. Isso para não mencionar o cospobre de Tornado Vermelho e a caracterização sofrível da Banshee Prateada.

Supergirl_Drinking_ProblemsMas por mais contraditório que possa parecer, nada disso alterara o quanto eu me diverti com a série. De verdade. Talvez pela sua simplicidade, Supergirl acabou se tornando um dos meus poucos Guilty Pleasure. E para ser honesto, para mim teve muito mais momentos dignos de aplausos do que vergonhosos. O alardeado crossover com o Flash da CW é legal para caramba, no melhor clima de Superamigos. O confronto entre Supergirl e sua versão “Bizarro” foi muito bem feito. Trazer o Dean Cain, a Helen Slater e até mesmo a Laura Vandervoort foi um jeito legal de homenagear a mitologia do Homem de Aço. As referências ao Super-Homem do Christopher Reeves são ótimas, como quando os efeitos da Kryptonita vermelha criada por Maxwell Lord acabam fazendo Kara recriar a famosa cena do bar de Superman III. Mas o grande momento foi sem dúvidas o episódio “For The Girl Who Has Everything”, baseado na clássica história “Para o Homem Que Tem Tudo” da dupla Alan Moore e Dave Gibbons. O episódio consegue ter até mais profundidade e drama do que a história original, já que ao contrário de seu primo, Kara tem lembranças de Krypton, o que só aumenta a sua sensação de perda quando ele finalmente se liberta da ilusão criada pela Clemência Negra.

Supergirl_RageDito isso, é realmente uma pena que Kal-El nunca tenha dado as caras na série. Ao menos sua versão adulta. Rola uma silhueta aqui, uma capa tremulando acolá, mas o Azulão mesmo que é bom nada. Provavelmente, os problemas contratuais impossibilitaram o encontro, mas por tudo o que a Supermoça conquistou nesse primeiro ano, teria sido legal ver ao menos um diálogo dos dois juntos que não fosse por Messenger.

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Eu que de início vi com desconfiança o anuncio dessa série, estou agora no aguardo do segundo ano. Com o Projeto Cadmus assumindo o posto de grande ameaça a ser derrotada minha expectativa para a segunda temporada só aumenta. É certo que o Guardião apareça em algum momento, tendo em vista que sua identidade civil, o Coronel James Harper (Eddie McClintock), já deu as caras na série, mas será que finalmente veremos o clone do Homem de Aço, o Superboy? Ou o Dubbilex e os DNAliens? E ainda tem o mistério deixado pelo season finale: Quem diabos estava naquela nave espacial que caiu no último episódio? Seria a Power Girl? O Krypto? Já pensou que doido seria o Supercão na série da Supermoça? Ou quem sabe poderia ser alguém vindo do futuro e não do espaço. O Anel da Legião já apareceu na série mesmo.

Supergirl_tumblr_01332Enfim, para quem reclama tanto do tom sombrio e pesado da DC nos cinemas, Supergirl é uma boa pedida, com aventuras ensolaradas e divertidas, daquelas que não tem medo de abusarem do absurdo e nem se preocupam muito com a lógica, no melhor espírito dos quadrinhos.  É o tipo de show que daqui a alguns anos com certeza vou fazer questão de apresentar para minha sobrinha. E acreditem isso conta e muito.

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Uma resposta para “Crítica | Supergirl – 1ª Temporada

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