Crítica | Legion – 1ª Temporada

A Melhor Série de 2017…

Aviso: O texto abaixo contém spoilers, leia por sua conta em risco.

Eu sou obrigado a dar a mão à palmatória: Legion é sem a menor sombra de dúvidas, uma das melhores séries que eu já assisti. Ela é ousada, surtada, espantosa, lisérgica e embasbacante como poucas vezes já se viu um seriado de televisão ser. Honestamente, acho que nunca vi uma série explorar os limites do audiovisual dessa forma.

Depois de tanto esculhambar com o universo dos X-Men nos cinemas, a FOX parece realmente decidida a se redimir. Além de nos presentear com o belíssimo Logan, o estúdio entrega uma das melhores produções da TV em 2017 até agora. Sim, isso mesmo. Legion é uma das melhores produções da TV de 2017. Quiça da década. “Nossa, que exagero. É só mais uma série de quadrinhos” pode dizer um ou outro leitor. Aí que está. Legion consegue ser muito mais do que mais uma simples adaptação de quadrinhos. Ela é uma verdadeira obra de arte. Se nos cinemas Logan arrancou merecidos elogios e lágrimas pela sua abordagem madura e melancólica do personagem, a série baseada no personagem criado por Chris Claremont e Bill Sienkiewicz já pode ser considerada uma das obras mais originais e inventivas dos últimos anos.

Mas afinal, sobre o que diabos se trata Legion? A série acompanha a jornada de David Heller (Dan Stevens), um jovem de vinte e poucos anos diagnosticado com esquizofrenia. David cresceu acreditando ser portador de uma doença mental, o que o levou a passar boa parte de sua vida internado em instituições psiquiátricas, ao lado de sua inseparável amiga Lenny (Aubrey Plaza, espetacular), até o dia em que conhece a bela Sydney Barrett (Rachel Keller), e descobre que na realidade é um dos mutantes mais poderosos do planeta. Por si só, a premissa do programa já tinha me agradado bastante. O criador e roteirista, Noah Hawley, se aproveita do tema para jogar com a percepção do espectador a todo momento, nos fazendo questionar – assim como o próprio David – o que é ou não realidade.

Se o amigo leitor já viu as duas sensacionais temporadas de Fargo, sabe como os roteiros de Hawley são ao mesmo tempo bizarros e geniais. A doença de David é o pretexto perfeito que o showrunner tem para criar uma narrativa instigante, que não tem medo de soar estranha e extremamente alucinada. Nada nessa série é por acaso. Tudo parece ser milimetricamente pensado para confundir. Dos nomes dos personagens – a personagem de Rachel Keller é uma clara homenagem a Syd Barrett, membro fundador e primeiro vocalista do Pink Floyd, famoso tanto por sua genialidade musical quanto, seu uso abusivo de LSD e problemas mentais – aos figurinos e cenários retrôs, que nunca deixam claro em que momento da cronologia dos filmes dos X-Men a série se insere (embora o mais provável é que seja entre o final dos anos 70 e inicio dos anos 80). Até os poderes dos mutantes que aparecem em tela parecem servir a esse propósito de brincar com a nossa percepção. Um é telepata, a outra tem a habilidade de trocar de corpos com que quem a tocar, já um outro tem o poder de visualizar com riqueza de detalhes toda e qualquer lembrança.

Nesse sentido, fazer do Rei das Sombras o vilão principal dessa primeira temporada parece algo totalmente natural. A escolha, aliás, me pegou de surpresa, pois eu fui mais um dos que achou que o tal “Demônio de Olhos Amarelos” era o Mojo. Vivendo como um parasita na mente de David, o vilão se alimentou dos poderes do herói desde que esse ainda era um bebê, distorcendo suas memórias e realidade.

Nos quadrinhos, Ahmal Farouk, como também é conhecido o Rei das Sombras, é um velho inimigo dos X-Men. Ele nutre um ódio mortal de Charles Xavier – que por sinal é pai do Legião – por esse ter lhe derrotado. Na série, dado como morto após uma batalha contra o Professor X, Farouk se escondeu dentro da mente de David e planeja utilizá-lo para executar sua vingança. Isso tudo é dito de forma bem criativa no sétimo episódio, com o lado racional de David tentando ajudar sua própria mente a se livrar do controle do Rei das Sombras.

Falando assim, o plot principal da série pode até parecer simples (e se analisarmos friamente, até é mesmo), mas a maneira como ele é executado faz toda a diferença. Legion é puro deleite visual. É uma verdadeira viagem de ácido. Pensa no que seria unir a psicodelia do Pink Floyd com o surrealismo de David Lynch, que você tem uma boa noção do esperar dessa série. Ela é o que acontece quando estúdios dão liberdade criativa para seus produtores trabalharem. E cacete, que coisa boa é ver o trabalho do Noah Hawley. O cara é tão bom no que faz que torna impossível de rotular a série dentro de um gênero especifico. Ela é uma série de super-heróis, mas também funciona como um drama. É um Sci-Fi, mas em certos momentos adiciona elementos de horror a mistura. É uma série que consegue caminhar entre o absurdo que é ter um cara vivendo em um cubo de gelo usando uma roupa de mergulhador no plano astral (pois é, pirado, né?), e o poético, de ver como o casal principal, impedidos até mesmo de darem as mãos devido aos poderes da Syd, compartilham momentos de afeto e carinho na realidade criado por David.

Eu realmente gosto de como a série consegue explorar de todos esses elementos visuais que dispõe e transforma certos momentos em um verdadeiro exercício de linguagem. Quantas séries por aí você já viu ter seu clímax tal qual no cinema mudo, com tudo em preto e branco e diálogos através letreiros? Ou encenar um número musical de Bollywood embalado por Serge Gainsbourg para ilustrar o amor do personagem por sua namorada? Minha cena favorita é o momento videoclipitico surtado, digno de abertura de 007, no qual a personagem da Audrey Plaza aparece dançando de calcinha e gola rolê no capítulo 6. Notem como essa cena não é só bonita esteticamente, mas tem o claro intuito de simbolizar o domínio do vilão sobre a mente do protagonista. O Rei das Sombras não está apenas presente em todos os cantos das memórias de David. Ele literalmente as possui.

E isso me leva diretamente a outro fator que torna a série tão boa: As atuações. A fotografia, a trilha, a edição, o figurino, tudo funciona maravilhosamente bem. Mas isso não seria nem de longe tão bom, se elenco não se comprometesse com toda a loucura do projeto e entregasse atuações à altura. Dan Stevens está realmente muito bom no papel principal. Você compra a angustia e inocência dele como David. A cena em que ele dialoga consigo mesmo, preso em um caixão em um canto de sua mente, é boa para cacete. Ele muda o sotaque e a postura com uma facilidade, que fica fácil de acreditar que David seja mesmo atormentado por múltiplas personalidades. Mas o grande trunfo da série é a Aubrey Plaza. Ela literalmente rouba o show para si. Sério, a performance dela está nível Emmy. Acho que desde o Coringa do Ledger um vilão não é tão diabolicamente cativante assim. É ótimo saber que além de renovarem o show para uma segunda temporada, arranjaram um jeito de mantê-la na série por mais tempo mesmo com o Rei das Sombras tendo sido expurgado do corpo de David. Com o vilão agora possuindo a mente de Oliver (Jemaine Clement), minhas expectativas para a próxima temporada só aumentam.

O resto do elenco também não deixa a desejar. A Syd da lindíssima Rachel Keller é mais do que um simples interesse amoroso. Ela é representa o coração e humanidade de David. Os dois se complementam de uma forma realmente única. Em certos momentos, eu realmente tive medo que ela fosse apenas mais uma de suas alucinações, já que ela parece trazer o melhor dele a tona. A química entre Stevens e Keller é perfeita. Outra química muito boa é a dos gêmeos (?) Carry (Bill Irwin) e Kerry (Amber Midthunder). A Melanie Bird (Jean Smart) é outra personagem bem interessante. O fato de você não conseguir definir ao certo suas intenções a tornam um enigma por uma boa parte dos primeiros episódios. Eu gosto da ideia de Summerland não ser apenas uma escola para mutantes, mas sim a sede de uma rebelião. Não vou negar que parte de mim torcia secretamente para que eles fossem a versão da série do Clube do Inferno, mas a ideia de ter várias escolas para mutantes ao redor do mundo, lutando contra a perseguição a sua espécie é bem melhor.

Como único ponto negativo, acho que a série poderia ter explorado um pouco mais as habilidades dos outros mutantes de Summerland, e as raízes de seu confronto com a Divisão 3, embora ache que isso não comprometa em nada o andamento geral. E a julgar pelo retorno do personagem do ator Hamish Linklater no último episódio, ainda ouviremos falar muito dessa organização nas próximas temporadas.

Apesar de ser uma série que eu recomendo altamente, tenho plena consciência que ela não é para todos. Legion é um show exige um em certo engajamento do seu espectador. Seu ritmo e narrativa podem não agradar uma boa parcela do habitual espectador de TV. Particularmente, eu acredito que para poder apreciar toda a estranheza e beleza dessa série em sua totalidade você tem que se deixar absorver pelo ritmo alucinógeno do show. Se você conseguir superar a estranheza inicial, provavelmente não irá se arrepender. Legion representa o que de melhor a TV tem a oferecer.

 Boa viagem!

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