Crítica | Legends of Tomorrow – 2ª Temporada

A volta por cima das Lendas…

Aviso: O texto abaixo contém spoilers, leia por sua conta em risco

E quem diria que a emissora responsável pelos seriados do arqueiro verde e do velocista escarlate, encontraria em um monte de heróis de segundo escalão da DC a sua série mais divertida. Se alguém me dissesse isso ano passado eu não acreditaria, mas Legends of Tomorrow é atualmente uma das minhas séries favorita da CW. Ao lado de Supergirl – que em seu segundo ano migrou da CBS para o mesmo canal de The Flash e Cia – as Lendas do Amanhã são a prova de que ainda há esperanças para as séries de TV da DC.

Após uma primeira temporada fraca e arrastada, Legends of Tomorrow soube se reinventar completamente, entregando uma trama ágil e divertidíssima em seu segundo ano. O resultado é tão bom que às vezes nem parece ser a mesma série. A saída da subtrama envolvendo Vandal Savage e o casal Mulher-Gavião e Gavião Negro parece ter dado mais ritmo e agilidade ao show, que apostou com sucesso no brega e a cafonice dos quadrinhos e filmes B, e soube dosar ao longo do caminho um enredo mais enxuto, com ótimos momentos de aventura episódica.

Partindo do gancho deixado pela primeira temporada, o início desse ano introduz a Sociedade da Justiça, ainda que de forma muito sucinta, e prepara o terreno para uma nova ameaça no caminho das Lendas. Agora que os Mestres do Tempo não existem mais o grupo é a ultima linha de defesa contra criminosos temporais, cabendo a eles salvar a história e o tecido do tempo de possíveis alterações. Os produtores da série optaram por um tom mais procedural nesse segundo ano, o que a meu ver só funcionou a favor do show. Esse formato episódico, com “o caso da semana”, o tom de aventura e o estilo Sci Fi ressalta ainda mais a semelhança com Doctor Who – a presença do Arthur Darvill só reforça isso. Pra mim isso é ótimo. É como se só agora os showrunners da série tivessem se tocado que eles tinham nas mãos um seriado que lida com viagem no tempo, e decidissem brincar com todas as possibilidades que isso permite.

Ao longo da temporada vimos momentos de puro fan service nerd que são tão bons que é impossível não sorrir de orelha a orelha. Como os episódios à lá De Volta Para o Futuro, em que as Lendas encontram com as versões mais novas de George Lucas e J.R.R. Tolkien e acabam servindo de inspiração para Star Wars e O Senhor dos Anéis. Ou nos ótimos “Camelot/300” e “Moonshot”, onde respectivamente, a equipe viaja para a corte do Rei Arthur e revisita a América da corrida espacial, com os heróis tendo que se infiltrar na Apollo 13. É interessante como algumas dessas idéias já eram “pinceladas” na primeira temporada de forma menos eficaz. A grande diferença é que dessa vez os roteiristas parecem ter encontrado o equilíbrio certo entre despretensão e algo que não subestime completamente a inteligência do espectador. E levando em consideração o modo como a CW desenvolve suas séries, isso é mais do que louvável.

Sem medo de arriscar, esse segundo ano da série pareceu não se contentou em explorar apenas viagens temporais, como também brincou com o conceito de realidades alternativas e controle da mente. Todo o arco envolvendo a Lança do Destino é ótimo, numa combinação perfeita de ficção científica com aventuras “pulp”, ao melhor estilo Indiana Jones. Aliás, usar o Rip Hunter (Arthur Darvill), sumido por boa parte da temporada, como um dos antagonistas da vez também foi uma puta sacada. Além de dar mais dramaticidade a série e adicionar uma sensação de urgência a história, possibilitou o ator Arthur Darvill demonstrar uma interessante faceta do personagem ao ir para o “lado negro da força”.

Os personagens foram muito melhores trabalhados nessa temporada, dando oportunidade para todos brilharem. Sara Lance (Caity Lotz) assumiu de vez o posto de Capitã e líder da equipe na ausência de Rip. E, diga-se de passagem, fez um trabalho muito melhor que o antigo Capitão da Waverider. As duas metades do Nuclear, Martin Stein (Victor Garber) e Jax (Franz Drameh) repetem a boa química da primeira temporada. O inesperado drama do Professor Stein ao descobrir o amor que sente por sua filha – fruto de sua interação com seu eu do passado, portanto uma “aberração” do tempo – é surpreendentemente comovente. Mick (Dominic Purcell) continua sendo um ótimo alívio cômico, mas mostra-se também uma grata surpresa ao apresentar todo um conflito interno mais profundo. A novata Amaya (Maisie Richardson-Sellers) mostrou-se uma integrante muito mais útil para o grupo do que foi a Mulher-Gavião, sendo a que melhor parece entender o que significa trabalhar em equipe e agir feito um herói de verdade. É interessante como eles conseguiram manter a seriedade da personagem, e ainda sim extrair certa comicidade de seu desconhecimento sobre alguns aspectos da cultura do século XXI, pelo fato dela vir da década de 40.

Agora, a dobradinha entre Ray Palmer (Brandon Routh) e o também novato Nate Heywood (Nick Zano) é de longe um dos meus pontos favoritos, podendo ser considerada o coração e a alma do show. A interação da dupla rende alguns dos momentos mais legais e divertidos da temporada. O bromance entre o historiador e o playboy cientista é simplesmente impagável, assim como a nerdice de ambos. A sacada de fazer Indiana Jones e Star Wars influências na escolha de carreiras da dupla é simplesmente genial. Ray conseguiu se tornar o meu personagem favorito ao longo dessa temporada. Brandon Routh está especialmente divertido abraçando essa postura de “escoteiro” do personagem, parecendo super confortável em tirar sarro de si mesmo.

Até os vilões ganharam espaço para brilhar. O ator Matt Letscher tem aqui finalmente a chance de se destacar como o Flash Reverso, e não a desperdiça. Se em The Flash, a atuação do Tom Cavanagh roubava o show, Letscher constrói em Legends of Tomorrow um Eobard Thawne tão ameaçador e imprevisível quanto. Fazê-lo formar ao lado de Malcolm Merlyn (John Barrowman), Damien Darhk (Neal McDonough) e Leonard Snart, a.k.a. Capitão Frio (Wentworth Miller em excelente participação especial) a versão desse universo da Legião do Mal – com direito a um quartel general idêntico ao do desenho animado Super-Amigos é simplesmente demais. Meu eu de oito anos agradece imensamente.

Os efeitos especiais continuam se mantendo muito bons para uma série de TV. Há cenas de batalha, como no grande crossover com as outras séries do Arrowverse, que realmente empolgam. O visual do Flash Negro também está sensacional. A direção de arte e os figurinos, contudo, são as que mais merecem os parabéns. O trabalho de reconstituição de época é impecável. Tivemos de quase tudo nessa temporada. Al Capone, George Washington, nazistas, ninjas, samurais, Velho Oeste e Guerra Civil. Tudo feito com muito cuido, com um visual não só convincente historicamente, mas bonito de se ver.

É óbvio que toda essa evolução não isenta a série de falhas. Mas é surpreendente ver como eles se empenharam em aprimorar o que funcionou no primeiro ano, e cortar de vez o que não funcionou. Eu realmente me surpreendi com o quanto eles se permitiram ousar, ainda que só de faz de conta. O que foi aquela versão em miniatura da Waverider e Rip Hunter no último episódio? Cômico e genial ao mesmo a tempo. A morte da Amaya e o Ray tendo seu coração arrancado do peito pelo Flash Reverso são dois exemplos de momentos bem corajosos da reta final do show que mostram como ele ainda pode ser cheio de chocantes surpresas. Sim, os roteiros ainda sofrem com o didatismo, repetição de temas e alguns episódios soam incrivelmente bobos e nosenses (Zumbis no meio da Guerra Civil? É sério isso, produção?), mas comparada a insuportável terceira temporada de The Flash (O que diabos aconteceu com você, Barry Allen?!), esse segundo ano de Legends of Tomorrow é um verdadeiro colírio para os olhos.

Divertida, colorida, leve e totalmente descompromissada, como uma boa história em quadrinhos, Legends of Tomorrow parece ter finalmente encontrado seu tom, conseguindo finalmente cativar o espectador em sua segunda temporada. O season finale concluiu de forma satisfatória a trama, abriu todo um interessante leque de possibilidades para o futuro e provou que quando quer qualquer série reinventar. Nada mal para uma série de heróis de segundo escalão.

        Covil secreto da Legião do Mal. Preciso dizer mais alguma coisa?

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